Quebrando a barreira das visões técnicas das obras, é impossível não dizer sobre o artista “ready-made” Marcel Duchamp. Ready-made significa “já pronto” e está ligado nas obras de Duchamp às novas significações que ele dava a objetos do cotidiano, objetivando causar sensações distintas a quem as vê, por mais que aqueles objetos já tenham sido visto antes.
Isso representou um ponto de virada no mundo artístico. O que pode ou não ser nomeado como uma obra de arte? Quem decide isso? Seu próposito foi demonstrar que o objetivo da arte não deve ser provocar prazer artístico, mas sim fazer com que o expectador pense. Por isso que muitas pessoas chamam Duchamp como o pai da arte conceitual. E suas próprias palavras demonstram este ponto de vista: ". Eu tinha interesse em idéias, não em produtos visuais. Eu quis colocar a pintura a serviço da mente..Duchamp é um daqueles que redefiniram o ponto de vista do que é arte; na verdade, ele foi um revolucionário,que não pôde descansar até que fizesse todos questionarem os paradigmas existentes. E ele entendeu que para fazer isso ele tinha que chocar a todos.
Entre 1913-1915 elabora os "ready-made", isto é, objetos encontrados já prontos, às vezes acrescentando detalhes, outras vezes atribuindo-lhes títulos arbitrários. Os títulos são sugestivos ou irônicos, como "Um ruído secreto" ou "Farmácia". "Por favor, toque" é o nome da obra ao lado.Com o seu estilo “ready-made”, Duchamp visa propor conceitos, ao invés de formas artísticas trabalhadas, preocupando-se mais com o conceito da obra do que com a sua forma. Ao trabalhar com objetos cotidianos em suas criações. Com esses objetos já feitos, ele deseja demonstrar o aspecto conceitual da obra tornando-se um propositor de conceitos, abstraindo-se antes de qualquer outra ideia de arte.
Duchamp decide, em toda a sua audácia artística, afirmar que quem decide o que é arte ou não, é o artista, e não os críticos.
“Fonte”, de 1917, é exemplo de seu ideário de conceitos artísticos , no qual ele inverte um urinol e expõe como arte, questionando qualquer que seja o sentido que causar no expectador.Marcel Duchamp formula então uma nova forma de ver a arte, tanto
para o artista, quanto para o espectador e o crítico. A idéia do ready- made só tende a partir para a posição que o inovador artista criou sobre o seu conceito amplo sobre o que deve ser considerado arte ou não.
A arte moderna, então, se liga às sensações, e se configura objetivando o confronto com o espectador e as sensações que a arte pode causar em quem a observa
Segundo o crítico e historiador de arte Giulio Carlo Argan, os "'ready-mades' podem ser lidos como gesto gratuito, como ato de protesto dessacralizante contra o conceito 'sacro' da 'obra de arte', mas também como vontade de aceitar na esfera da arte qualquer objeto 'finito', desde que seja designado como 'arte' pelo artista".Esses "ready-mades" escondem, na verdade, uma crítica agressiva contra a noção comum de obra de arte. Com os títulos literários, Duchamp rebelou-se contra a "arte da retina", cujos significados eram só, segundo ele, impressões visuais. Duchamp declarou que não pretendia criar objetos belos ou interessantes. A crítica da obra de arte se estendia à antítese bom gosto-mau gosto.
Veja este detalhe acrescentado em um "ready-made" célebre: uma reprodução da Gioconda, de Leonardo da Vinci, com barbicha e bigodes.E tire sua conclusão....
UM POUCO MAIS SOBRE MARCEL DUCHAMP
Artista francês, Marcel Duchamp nasceu em Blainville, França, a 28 de julho de 1887, e morreu em Nova York, EUA, em 2 de outubro de 1968, em uma família abastada que o encorajou a perseverar em sua vocação artística.Até porque ele já sabia o que queria fazer desde adolescente. Comprometido em tornar-se um artista, ele muda-se para Paris com apenas 17 anos. Freqüentou em Paris a Academie Julian, onde pinta quadros impressionistas, segundo ele, "só para ver como eles faziam isso".
Em 1911-1912 suas obras "O rei e a rainha cercados de nus" e "Nu descendo uma escada" estão na confluência entre o Cubismo e o Futurismo. São quadros simultaneistas, análises do espaço e do movimento. Mas já se destacam pelos títulos, que Duchamp pretende incorporar ao espaço mental da obra.
Entre 1915 e 1923 o artista dedicou-se à sua obra principal, "O grande vidro", pintura a óleo sobre uma placa de vidro duplo dividido em duas seções. A parte superior chamou de "A noiva desnudada pelos seus celibatários, mesmo"; e a inferior, "Moinho de chocolate". Toda a obra é um pseudomaquinismo: a "noiva" é um aparato mecânico, assim como os "celibatários". Contendo vários níveis de significação, várias hipóteses foram formuladas pela crítica para descobrir o sentido de sua complicada mitologia.
Após "O grande vidro", Duchamp dedicou-se aos mecanismos ópticos - que chamou de "rotorrelevos". Em 1941 executa outra obra interessante, "A caixa-maleta", contendo modelos reduzidos de suas obras, e, em 1943, a "Caixa verde", contendo fotos, desenhos, cálculos e notas.
A partir de 1957 muda-se para Nova York, dedicando-se à sua paixão pelo jogo de xadrez. Seu silêncio parece uma redução da capacidade inventiva, mas após sua morte descobre-se que o artista estivera trabalhando secretamente na construção de um "ambiente": um quarto fechado onde repousa uma figura em cera, cercada de vegetações. O ambiente só pode ser visto, por determinação do artista, por um orifício da porta.A obra de Duchamp, reduzidíssima, foi menos obra do que uma atitude, um gesto crítico radical, mas em muitas declarações o artista recusou-se a ser visto como um destruidor. A atitude crítica de Duchamp ainda repercute, tantos anos depois de suas criações radicais.
Na opinião de Giulio Carlo Argan, "talvez a obra de Duchamp alquímica por excelência seja toda a sua vida, que serve de modelo para todas as novas vanguardas do segundo pós-guerra, do 'New Dada' às experiências de recuperação do corpo como expressão artística, na intenção de fazer coincidir arte e vida".
Quer ver mais: http://www.understandingduchamp.com/